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Museu indígena em Blumenau: liderança Xokleng reivindica memória em discurso na Câmara Municipal.

Na última sexta-feira (30/04), a liderança indígena Nandja, do povo Laklãnõ Xokleng e presidenta do Instituto Legdjyl, ocupou a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Blumenau em um discurso alusivo ao Dia dos Povos Indígenas (19/04), espaço articulado com apoio do Vereador Jean Volpato (PT). Mais do que uma participação protocolar, sua fala marcou a presença indígena em um espaço historicamente distante dessas vozes. Nandja vive no Território Goj Konã, uma retomada territorial do povo Laklãnõ Xokleng localizada no Parque Nacional da Serra do Itajaí, em Blumenau.

Foto: Camâra Municipal de Blumenau

Sem memória não há cidade: o que a fala de Nandja revela sobre Blumenau 

Logo na abertura, Nandja se afirmou como herdeira ancestral do território onde hoje se ergue Blumenau, evocando o nome originário Laklãnõ — Kózy Lá — denominação do povo Xokleng anterior à colonização, e recolocando em cena uma memória frequentemente silenciada pela narrativa oficial da cidade.

Diante dos vereadores, Nandja destacou que a data não deve ser tratada como mera celebração simbólica, mas como um chamado à reflexão e à reafirmação da existência dos povos originários que vivem em Blumenau, uma presença viva, atual, que rompe com a ideia de que os indígenas pertencem apenas ao passado. Em sua fala, também foi enfática ao afirmar que as violências sofridas por seu povo não podem ser reduzidas a ações isoladas de imigrantes. Tratam-se, segundo ela, de processos conduzidos e legitimados pelo próprio Estado, responsável por estruturar políticas e práticas que resultaram na expropriação territorial, na perseguição e no apagamento histórico dos povos indígenas.

A liderança também lembrou personagens centrais desse processo histórico, como os bugreiros, responsáveis diretos pela violência e pelo genocídio sofrido pelo povo Laklãnõ Xokleng. Ao trazer esse elemento à tona, Nandja deixou claro que não se trata de incitar conflitos, mas de provocar uma reflexão necessária sobre a memória de Blumenau. Segundo ela, uma cidade que não reconhece seu passado em toda a sua complexidade e violência, constrói para si uma identidade incompleta.

Ao revisitar esse passado, a liderança recordou o momento de contato forçado entre indígenas e não indígenas, evocando a memória dos cerca de 160 Laklãnõ Xokleng sobreviventes ao massacre financiado pelo Estado. Diante da violência sistemática, esses sobreviventes aceitaram, em 1914, estabelecer diálogo, decisão que levou à sua fixação na atual Terra Indígena Laklãnõ e que, como destacou Nandja, foi fundamental para garantir a continuidade de seu povo.

É a partir dessa memória, marcada pela violência, mas também pela resistência, que Nandja apresentou à Câmara Municipal a proposta que motivou sua fala: a criação de um Museu da Memória Indígena Laklãnõ Xokleng em Blumenau, como forma de reconhecer essa história e inscrevê-la de maneira permanente no espaço público da cidade.

“Um espaço físico, vivo, construído por muitas mãos. Onde a história será contada por nós”

Nandja destacou que, em Santa Catarina, ainda é comum que cidades homenageiem personagens associados à violência da colonização, citando como exemplo o bugreiro Natale Coral, homenageado em dezembro de 2020 no município de Veneza (SC). Para a liderança, esse tipo de reconhecimento contrasta com a realidade vivida pelos povos indígenas, que seguem lutando pelo básico: o direito de preservar sua própria memória, muitas vezes sem qualquer incentivo do Estado.

A esse processo material de violência soma-se uma dimensão simbólica que persiste no presente, expressa, por exemplo, na tentativa de rebatizar o Vale do Itajaí como “Vale Europeu”, apagando deliberadamente as presenças originárias que constituem esse território. Nesse contexto, a ausência de espaços institucionais que reconheçam essa história não é neutra, e prolonga o apagamento.
Ao abordar esse contraste, Nandja foi enfática ao afirmar que sua proposta não busca dividir, mas equilibrar. Nesse sentido, apresentou a criação do Museu da Memória Indígena Laklãnõ Xokleng como uma iniciativa capaz de fortalecer não apenas a memória histórica, mas também a educação, a cultura e o turismo na cidade. “Hoje, o turista chega em Blumenau e conhece apenas uma parte da história”, destacou.

Encaminhando sua fala para o encerramento, a liderança ressaltou que a proposta não é individual, mas coletiva, expressando o desejo da comunidade. Nandja mencionou os apoios que o projeto já vem recebendo, incluindo a mobilização de estudantes da FURB, e destacou que a iniciativa já conta com uma petição pública em andamento, reunindo assinaturas em defesa da criação do museu. 
A fala de Nandja encerrou deixando em evidência que o debate sobre a memória indígena em Blumenau está longe de se esgotar. A proposta do museu, somada às mobilizações já em curso, aponta para um movimento crescente de reconhecimento e valorização da presença dos povos originários na cidade, trazendo à tona uma história que, por muito tempo, permaneceu à margem dos espaços institucionais. 

A fala pode ser vista na íntegra no canal TV Legislativa, da Câmara Municipal de Blumenau.

Seminário na FURB debate proposta de Museu da Memória Indígena Laklãnõ Xokleng

A Universidade Regional de Blumenau (FURB) recebeu, no dia 27 de abril, o seminário acadêmico-cultural Museu, Memória e Patrimônio Laklãnõ Xokleng: perspectivas para Blumenau. Realizado no auditório da Biblioteca Universitária, no Campus I, o evento reuniu a comunidade interna e externa da universidade em um debate marcado pela defesa da memória e da presença indígena no território.

O auditório ficou lotado, especialmente com a presença de indígenas Laklãnõ Xokleng vindos da Terra Indígena Laklãnõ, no Alto Vale do Itajaí, que participaram do encontro para fortalecer a proposta de criação de um Museu da Memória Indígena em Blumenau.

A mesa-redonda contou com a participação do líder indígena Cabechuim Ló Camlem, da historiadora Sueli Petry, diretora de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais de Blumenau, e da museóloga Lucia Seara Valente, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. A mediação foi realizada pelo professor de História Alisson Sonaglio. O evento foi organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da FURB (DCE), em parceria com a Comissão de Diversidade e Inclusão (Codin) e a Divisão de Cultura da universidade.

Mais do que um espaço de debate acadêmico, o seminário consolidou-se como um importante momento de articulação entre universidade, comunidade e movimento indígena. A proposta do museu, defendida ao longo do encontro, reafirma a necessidade de reconhecer a presença histórica e contemporânea do povo Laklãnõ Xokleng em Blumenau, tensionando narrativas oficiais e fortalecendo a construção de uma memória pública mais plural e inclusiva.

Foto: Divulgação – @culturafurb

 

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